Relação entre a Globo e a Ditadura

Relação entre a Globo e a Ditadura

 

AS RELAÇÕES ENTRE AS ORGANIZAÇÕES GLOBO E A DITADURA MILITAR: QUAIS OS LIMITES DA NARRATIVA DE IMPARCIALIDADE DA MÍDIA NO BRASIL?

(Fatos e personagens históricos do Regime Militar Brasileiro de 1964-1985)

Por THOMAS E. SKIDMORE

A mídia cultural que alcançou maior impacto durante o regime militar foi a televisão. Em 1960, o ano em que Jânio Quadros ganhou a presidência, o Brasil tinha menos de 600 mil aparelhos de TV. Em 1986, o total era de 26,5 milhões, um aumento de mais de quarenta vezes, ajudado por termos de instalação favoráveis induzidos pelo governo. O número de estações havia aumentado a uma taxa ainda mais rápida. Em 1964 havia apenas 14, enquanto em 1985, quando o último general deixou a presidência, havia 150. Além disso, uma rede de microondas construídas pelo governo ajudou a criar um sistema de dimensão nacional, o que significava que o governo federal, por meio de seu licenciamento, podia moldar (e moldou) a propriedade da mídia da qual a maioria dos brasileiros obtinham suas notícias e entretenimento.

A mais famosa beneficiária do favoritismo do governo foram as Organizações Globo, o conglomerado de mídia e editora que entrou na área da TV em 1965 e inicialmente obteve ajuda técnica e financeira do grupo Time-Life para se desenvolver. A corporação logo se desfez desse vínculo e emergiu por si mesma como a mais agressiva e profissional rede de TV. Sua expansão foi abertamente favorecida pelos governos militares, que lhe garantiram as melhores localizações e facilitaram a importação do equipamento mais atualizado. Em troca, a TV Globo seguia uma política de programação estritamente pró-governo, um poderoso trunfo para os generais, uma vez que o telejornal noturno da TV Globo alcançava 80% de audiência, além de suas taxas de audiência no geral superarem de longe a soma das taxas de todas as outras redes.

Em 1985 a TV Globo tornava-se a quarta maior rede do mundo, com uma audiência de 80 milhões. Suas competentes telenovelas noturnas desenvolveram um público fanático e foram exportadas para mais de cinquenta países, demonstrando que seus produtores, escritores e atores haviam confeccionado um produto de apelo universal. Para aqueles que se preocupavam com a identidade do Brasil, era um outro sinal de sucesso, qualquer que fosse a sua avaliação, no cenário mundial.

Os donos das estações privadas ainda tinham um bônus extra com a intensa propaganda feita pelas corporações e bancos estatais. Ganhos com publicidade vinham de todas as fontes, e somaram US$ 350 milhões em 1970 a US$ 1,5 bilhão em 1979. A sofisticação nos anúncios da TV cresciam junto com os ganhos, e as agências de propaganda brasileiras começaram a conquistar prêmios internacionais. A americanização da mídia nacional, no sentido da estrutura de propriedade e produção técnica, senão de programas dos EUA, prosseguia a passos acelerados. Se boa parte da programação era insípida e sonífera, não se poderia dizer o mesmo da TV ao norte?

 

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"RESSURGE A DEMOCRACIA!": TEXTO DO EDITORIAL DO JORNAL "O GLOBO" CELEBRANDO O GOLPE DE 1964 (02/04/1964):

Por PRAGMATISMO POLÍTICO

"Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunicação que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, 'são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.'

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranquilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”

* Referências:

- SKIDMORE, Thomas E. Uma história do Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.

- "Ressurge a Democracia": editorial do Jornal "O Globo" de 2 de abril de 1964. Disponível em: https://www.pragmatismopolitico.com.br/.../editorial..




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