Relações abusivas

Relações abusivas

 

Imagem de destaqueFotografia do autorPor MARTA GONçALVES MIRANDA
Diretora-executiva

No início desta semana, vi um documentário na Netflix chamado “Dirty John: A Sórdida Verdade”. Em jeito de resumo, é sobre a história de John Meehan, um predador em série que extorquiu dinheiro a várias ex-namoradas, não se coibindo de ameaçá-las e aterrorizá-las. Uma das suas vítimas foi Debra Newell, que mesmo depois de descobrir a teia de mentiras de John, decide dar-lhe uma nova oportunidade.

A este propósito, uma psicóloga forense explica que, em média, as mulheres tentam largar os seus parceiros abusivos, física ou psicologicamente, ou ambos, sete vezes. Não é à primeira, nem à segunda, nem à terceira. São precisas sete tentativas para conseguirem libertar-se de um relacionamento destrutivo.

Numa altura em que a violência doméstica é um tema premente, ou não fossem os números de 2019 verdadeiramente assustadores — já morreram 11 mulheres, uma bebé e um homem —, senti que não tinha muito mais a acrescentar ao que foi dito. Tal como Francisca De Magalhães Barros escreveu para a “Sábado“, elas não querem minutos de silêncio. Tal como Andrea Peniche disse no “Público“, não queremos flores, queremos direitos. Tal como Paula Cosme Pinto defendeu no “Expresso“, a luta feminista não é contra os homens, é contra o machismo.

Não quero falar sobre violência doméstica, mas quero falar sobre relações tóxicas. Porque queiramos tomar consciência disso ou não, elas fazem parte da realidade atual. E nós, mulheres, até podemos não ser as únicas vítimas, mas somos as principais.

Eu vivi uma relação tóxica. Duas das minhas melhores amigas viveram uma relação tóxica. Várias amigas de amigas minhas viveram relações tóxicas. A mãe de uma amiga, com mais de 50 anos, viveu uma relação tóxica. Tudo isto num espaço de dois anos. Cada história foi diferente, cada relação teve um desfecho distinto, mas todas elas tiveram um ponto em comum: eles tratavam-nos mal. Não num sentido violento, verbal ou físico, mas tratavam-nos mal.

Deixo-vos alguns exemplos.

— Está vários dias, ou até semanas, sem dizer nada e reaparece como se nada fosse;
— Diz que não está pronto para uma relação ou que não gosta de nós, mas é extremamente exigente para estar quando lhe apetece;
— Passa a viver às nossas custas financeiramente;
— Corre atrás de nós quando percebe que nos estamos a afastar;
— É desagradável. Eu e as minhas amigas ouvimos coisas como: “Nas fotos achava que eras mais bonita do que eu, mas na vida real acho que sou eu o mais giro” ou “Eu não sou carinhoso muitas vezes para não ficares com a ideia errada [praticamente viviam juntos]”;
— Nunca pergunta se está tudo bem, como vão as coisas, o que é que se passa se estamos em baixo;
— Mas despeja os seus problemas em cima de nós;
— Foge de tudo o que se assemelhe a uma discussão ou confronto;
— Diz que abomina ser pressionado.

Lembra-se daquela frase da psicóloga forense, sobre a média de sete tentativas até conseguir libertar-se do agressor? Isto também se aplica a estes casos. No meu caso foram apenas duas tentativas. No caso de amigas minhas, chegaram a ultrapassar as dez.

Então o que é que isto significa? Que somos todas parvas e sem personalidade, que temos baixa auto-estima, que morremos de medo de ficar sozinhas ou até que temos pouco apoio da família e amigos? No meu caso e dos que me rodeiam, a resposta é não. Mal comparando — porque, atenção, não estou mesmo a traçar nenhuma comparação entre os dois casos —, nenhum homem dá uma estalada a uma mulher no dia em que se juntam. Nestes casos, nenhum homem nos tratou mal no primeiro encontro.

Eles foram absolutamente encantadores. Mais até do que qualquer outro homem com quem tenhamos tido uma relação saudável. Eles eram presentes, prestáveis, interessados e, regra geral, fascinantes e inteligentes. Até que um dia demoraram seis horas a mandar mensagem e nós ignorámos. No dia seguinte, deixaram de nos responder. De repente apercebemo-nos que voltaram a não dizer nada, mas em vez de seis horas demoraram um dia. No dia seguinte, desapareceram sem deixar rasto.

E nós chorámos a achar que tinha acabado. Chamámos as amigas, comprámos gelado e fizemos o luto pela relação, com a certeza de que nunca voltaríamos a sentir aquele frio na barriga por alguém. Até que eles reaparecem na sexta-feira como se nada tivesse acontecido, a convidar-nos para jantar.

Umas não dizem nada, outras reclamam — eu faço parte do último lote, reclamei sempre. Mas o resultado foi o mesmo: fomos enganadas. Acabámos por nos deixar ir. De repente aquele relacionamento era como uma droga, e nós precisávamos de mais. Jurávamos às amigas que não íamos ceder, que desta é que era. Chegámos a apagar números de telefone, mas sabíamos sempre como voltar.

E voltávamos. Já não sabíamos quem éramos, o que queríamos. Deixámos de gostar de nós e de tirar prazer das coisas. Felicidade? Só quando estávamos com eles. E, mesmo assim, nem essa era verdadeira — no fundo do nosso ser, nós sabíamos que aquilo estava errado. E sabíamos que tinha de acabar.

Debati muito sobre este assunto no meu círculo íntimo. Porque é que voltávamos para as nossas relações tóxicas? Porque eles se tinham tornado numa droga? (Sobre este tema, vale a pena recordar este artigo da MAGG sobre como é que uma break-up afeta o nosso cérebro). Ou porque havia uma parte de nós que continuava a achar que os íamos conseguir mudar?

Nunca cheguei a uma resposta. Mas acho importante que continuemos a falar sobre isto. Não vou fazer uma análise sociológica ao assunto, assumir que existem mais relações tóxicas agora do que na geração do meu pai, mas posso garantir-vos que elas existem. E se calhar quem está a ler-me também sabe disso, mesmo que nunca tenha falado com ninguém sobre o assunto.

Nós merecemos mais. Nunca se esqueçam disso. Digam não à violência e digam não a tudo o que vos faça nem que seja 1% infeliz.

Esta semana, a jornalista Ana Luísa Bernardino foi tentar perceber o que é que falha no sistema judicial no momento de ajudar uma vítima de violência doméstica. A lei é “completa”, garante um jurista, mas há várias coisas a melhorar. Ainda sobre este tema, o Fábio Martins revela como devemos agir em caso de violência doméstica, sejamos nós as vítimas ou não.

Mas há mais. A propósito da estreia do filme “Snu”, Marta Cerqueira conta-nos 10 curiosidades sobre o grande amor de Sá Carneiro. Mostramos-lhe ainda onde anda Fabiana, a rainha do strip no Viking, e revelamos-lhe a história de um fotógrafo que conseguiu entrar num palácio abandonado no Saldanha há 30 anos.

Mais abaixo, deixo outras sugestões de artigos para ler este fim de semana, com ideias de programas, coisas para fazer, ver, comer, experimentar. Qualquer coisa, dúvida, um só um olá, estou aqui: [email protected] Até sexta e bom fim de semana.

 

Violência doméstica. Lei é "completa", mas falha

A fraca formação multidisciplinar, as penas suspensas, a falta de provas e outras incongruências. O sistema funciona, mas é deficiente.

Sabe como agir em caso de violência doméstica?

Nunca deve culpabilizar a vítima ou mostrar-se desiludido sempre que esta voltar para o seu agressor. Uma psicóloga da APAV explica.

 

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