Será novo este ano?

Será novo este ano?

Será novo este ano?

Frei Betto  10/01/2022





Esse novo ano ainda tem cara de velho. Te­remos de aguentar um ge­no­cida ne­ga­ci­o­nista no poder até 31 de de­zembro. Não vai ser fácil! E tudo isso agra­vado pela Covid-19, que muitos pensam ser pos­sível er­ra­dicar, com me­didas pa­li­a­tivas e a va­ci­nação de apenas uma par­cela da po­pu­lação mun­dial, quando tudo in­dica que o vírus, que não faz dis­tinção de classe ou etnia, não dei­xará de nos con­ta­minar en­quanto houver quem não tenha sido va­ci­nado.

Ano de co­me­morar o bi­cen­te­nário da in­de­pen­dência do Brasil. Es­crevi co­me­morar, e não ce­le­brar ou fes­tejar. Co­me­morar sig­ni­fica avivar a me­mória, res­gatar o pas­sado e livrá-lo das peias que nele im­pri­miram o selo do equí­voco.

Que in­de­pen­dência é essa se ainda somos co­lo­ni­zados pelos EUA e os países da União Eu­ro­peia? Se a nossa eco­nomia de­pende das im­por­ta­ções da China? Como ce­le­brar a in­de­pen­dência se as nossas au­to­ri­dades e os pró­ceres do mer­cado vivem cla­mando aos céus que ve­nham in­ves­ti­mentos es­tran­geiros?

Num país em que po­lí­ticos não se en­ver­go­nham de de­fender a pri­va­ti­zação do pa­trimônio pú­blico, como falar de in­de­pen­dência? Somos, sim, de­pen­dentes do ca­pital es­tran­geiro, da tu­tela es­ta­du­ni­dense, da tec­no­logia es­tran­geira, da men­ta­li­dade sub­ser­vi­ente com que mi­ramos as na­ções prós­peras. E pensar que, ao final da Se­gunda Grande Guerra, a China e o Japão eram mais sub­de­sen­vol­vidos que o Brasil!

Em 200 anos tí­nhamos tudo para ser uma nação al­ta­mente de­sen­vol­vida, sem bol­sões de po­breza. Temos um imenso oceano e uma bacia hi­dro­grá­fica in­ve­jável. Fi­gu­ramos entre os cinco mai­ores pro­du­tores de ali­mentos do mundo, e apenas de frutas con­tamos com cinco mil va­ri­e­dades. Como ob­servou Ca­minha, aqui, “em se plan­tando, tudo dá”. Pos­suímos abun­dantes ri­quezas mi­ne­rais e a maior flo­resta tro­pical do pla­neta.

O Brasil quase não é afe­tado por ca­tás­trofes na­tu­rais. Nada de vul­cões, fu­ra­cões e ter­re­motos de grandes pro­por­ções, nada de secas pro­lon­gadas e tor­nados fre­quentes, nem grandes ex­ten­sões ter­ri­to­riais co­bertas por neve.

Mas não temos go­verno! Mais da me­tade de nossa po­pu­lação vive na po­breza. Hoje, 19 mi­lhões de bra­si­leiros passam fome e 106 mi­lhões so­bre­vivem em in­se­gu­rança ali­mentar. Chega a 13 mi­lhões o nú­mero de de­sem­pre­gados e 40,6% dos tra­ba­lha­dores atuam na in­for­ma­li­dade (Pnad/IBGE).

Cresce também a de­si­gual­dade so­cial. A renda média dos 10% mais ricos é 29,25 vezes maior que a dos 50% mais po­bres (Re­la­tório do La­bo­ra­tório de De­si­gual­dade Mun­dial). Os 10% mais ricos detêm em mãos 59% da renda na­ci­onal, e os 50% mais po­bres ficam com apenas 10%.

Hoje, apesar do Au­xílio Brasil, a de­si­gual­dade au­menta de­vido à in­flação, o au­mento do preço dos com­bus­tí­veis, o de­sem­prego e a de­sar­ti­cu­lação do en­sino pú­blico du­rante a pan­demia, por força das res­tri­ções sa­ni­tá­rias e da falta de apoio do go­verno fe­deral aos mais vul­ne­rá­veis.

Aqui, a de­si­gual­dade tem cor. Os bra­si­leiros brancos, ho­mens e mu­lheres, que in­te­gram o se­leto grupo dos 10% mais ricos somam 8,6 mi­lhões de pes­soas (6,9% da po­pu­lação), e abo­ca­nham 41,6% da renda na­ci­onal. As pes­soas ne­gras, que são 53,8% da po­pu­lação, ficam com apenas 35% da renda total (Dados Made). Os adultos brancos são sete vezes mais ricos que os ne­gros (Oxfam Brasil).

A grande es­pe­rança para o nosso país neste ano de 2022 re­side nas elei­ções de ou­tubro. É hora de ti­rarmos este go­verno ne­fasto, ne­cró­filo, que de­fende a “pá­tria ar­mada, Brasil”, e ele­germos Lula pre­si­dente com um pro­grama de re­formas es­tru­tu­rais que fa­vo­reçam a mai­oria da po­pu­lação. Mas isso não basta. É pre­ciso re­novar ra­di­cal­mente o Con­gresso Na­ci­onal, eleger de­pu­tados fe­de­rais e se­na­dores mais com­pro­me­tidos com as pautas po­pu­lares e am­bi­en­tais. E também eleger go­ver­na­dores pro­gres­sistas.

Há muito a fazer para que este ano seja re­al­mente novo!

 

Frei Betto

As­sessor de mo­vi­mentos so­ciais. Autor de 53 li­vros, edi­tados no Brasil e no ex­te­rior, ga­nhou por duas vezes o prêmio Ja­buti (1982, com "Ba­tismo de Sangue", e 2005, com "Tí­picos Tipos")

https://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/14877-sera-novo-este-ano 

 




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