Silêncio vira permissão

Silêncio vira permissão

Quando o silêncio vira permissão

Franklin Maciel 

 

 

 

Imagens amplamente divulgadas voltaram a expor um padrão perturbador no campo da direita bolsonarista. Entre os episódios, um envolve diretamente o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), que foi flagado pelas câmeras com a mão posicionada nas nádegas de Michelle Bolsonaro durante um evento público.

Não se trata de interpretação abstrata ou ilação política: o registro visual existe e circula amplamente. E esse não é um caso isolado. É a segunda vez que um dirigente ou aliado do PL aparece protagonizando gestos invasivos e inadequados em relação à ex-primeira-dama.

O ponto central não é apenas o comportamento em si — grave por natureza —, mas a sua normalização. O gesto não gera constrangimento público, não há repreensão, não há reação visível.

O silêncio, nesse contexto, deixa de ser neutro e passa a funcionar como anuência simbólica, quase como se dissesse: “eles são assim mesmo”. Não, não são. Homens não são animais movidos por impulso incontrolável. São sujeitos plenamente responsáveis, obrigados a respeitar limites, pessoas e a lei.

Há ainda um aspecto ainda mais grave e revelador. Se setores da direita não demonstram respeito nem por uma mulher que muitos deles próprios projetam como possível candidata à Presidência da República, o que se pode esperar do tratamento dispensado às demais mulheres fora do palco do poder?

Se não há limite diante das câmeras, diante de uma figura pública protegida por visibilidade e status, por que haveria respeito pela mãe anônima, pela filha, pela funcionária, pela sobrinha, pela trabalhadora comum? O gesto invasivo não é um desvio individual: ele revela uma lógica em que mulheres são tratadas como objetos manipuláveis, peças de cena política, desprovidas de autonomia e dignidade.

Quando não há reação, quando não há denúncia ou sequer repúdio, cria-se um ambiente permissivo que estimula novos abusos, possivelmente ainda mais graves.

É por isso que o caso ultrapassa o plano individual e revela algo estrutural: uma direita que segue tratando mulheres como objeto de imagem e instrumento político, algo a ser tocado, exibido ou usado para autopromoção.

Isso não é conservadorismo. Respeito não é gentileza — é dever. E a omissão, nesse cenário, acaba legitimando uma cultura que precisa ser exposta e enfrentada.




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