Sobre escolas cívico-militares

Sobre escolas cívico-militares

Estados se dividem sobre escolas cívico-militares

Especialistas criticam o modelo por tirar recursos e tempo de gestão em vez de investir na formação dos professores

Agência Estado

Escola cívico-militar em Brasília

Escola cívico-militar em Brasília

Marcelo Camargo/Agência Brasil

 Ainda há dúvidas sobre como será a adesão dos Estados às escolas cívico-militares e especialistas criticam o modelo.

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O Espírito Santo já adiantou que não deve aderir ao programa. "Não está no planejamento", disse o secretário Vitor De Angelo. A rede pública local teve o melhor resultado do País em avaliações do governo federal no ano passado, tanto em Português quanto em Matemática no ensino médio.

Já o secretário de Educação de Pernambuco, Fred Amancio, também disse que sua equipe ainda vai verificar se o projeto está alinhado com o que se prevê para o Estado — outro destaque nacional na área. Outras unidades da Federação já adotam o modelo: Amazonas, Minas, Bahia, Goiás e Brasília.

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Para a presidente executiva do movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, é mais uma política que vai tirar recursos e tempo de gestão, em vez de investir em formação dos professores e adoção de tempo integral nos colégios. "A militarização é a confissão deste governo da sua incapacidade de formular e implementar políticas educacionais consagradas pelas experiências nacionais e internacionais", diz

Para Rafael Parente, secretário do Distrito Federal até agosto, por melhor que o modelo seja, não funcionará se for imposto. Em Brasília, houve sete adoções desde janeiro. "Algumas têm resultados favoráveis porque bem ou mal você acaba transformando aquele ambiente em mais seguro, nem que seja pelo medo dos militares."

O modelo de escola cívico-militar funciona? Leia o debate

Bolsonaro regulamentou o Programa Nacional das Escolas Cívico-militares. Especialistas analisam o modelo e apontam benefícios e dificuldades

6 SET2019

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) assinou nesta quinta-feira, 5, decreto regulamentando o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares. Os Estados e o Distrito Federal poderão indicar, de 6 a 27 de setembro, duas escolas para receber o projeto já no primeiro semestre letivo de 2020 - elas precisam ter de 500 a mil alunos, do 6º ao 9º ano do fundamental ou do ensino médio. Especialistas com visões distintas sobre a iniciativa escreveram, a pedido do Estado, análises sobre o assunto. Veja:

O modelo de escola cívico-militar funciona? Sim

"Pautadas por dois diferenciais importantes, que são o sistema de organização e a metodologia adotada, as escolas cívico-militares de Goiás são reconhecidas em nível nacional como um modelo de grande sucesso. Na gestão compartilhada, cabe à PM a indicação do diretor que, por sua vez, tem autonomia para escolher a equipe gestora. As vagas são distribuídas de forma bastante democrática, por sorteio aberto à comunidade. Os alunos fazem a sua inscrição e a seleção é feita por meio de sorteio aberto à comunidade.

As escolas cívico-militares também primam pelo respeito à cidadania, garantindo a inclusão das pessoas com necessidades especiais e dando a eles todo o suporte necessário para um bom desempenho. Toda a parte pedagógica é de responsabilidade da Secretaria da Educação. Um diferencial é que as escolas cívico-militares possuem um regimento interno próprio, que incentiva a participação ativa de pais e mestres no cotidiano escolar por meio de uma associação.

Com isso, pais e/ou responsáveis têm presença fundamental no desenvolvimento escolar de seus filhos, bem como acompanham de perto a gestão da escola, inclusive fiscalizando os recursos que chegam. E todos nós sabemos o quanto o envolvimento dos pais e/ou responsáveis faz toda a diferença na aprendizagem de nossos estudantes.

Mas, para além do ensino de excelência das escolas cívico-militares, em Goiás, todas as escolas da rede estadual merecem reconhecimento por ter como um de seus pilares a formação para os valores humanos, morais e éticos, tão necessários na sociedade contemporânea. Defendo todo e qualquer modelo educacional que ensine nossas crianças e jovens a serem cidadãos de boa índole, que respeitem as diferenças, que reconheçam e se solidarizem com a dor do próximo e que estejam comprometidos com uma sociedade mais justa e igualitária. Defendo também uma escola de qualidade, onde todo aluno consiga aprender e todo professor tenha tranquilidade e condições de executar seu trabalho com compromisso e responsabilidade."

Fátima Gavioi é secretária estadual da Educação de Goiás

O modelo cívico-militar funciona? Não

"As escolas militares - nas quais se inspiram as de gestão compartilhada - foram criadas, prioritariamente, para prover educação básica aos dependentes de militares e estudantes que não estejam nessa condição são selecionados por meio de concurso público. O próprio projeto oficializado nesta quinta-feira reforça essa característica de uma escola para poucos escolhidos.

modelo cívico-militar, de uma escola para poucos, contrasta com o modelo de escola pública civil que o Brasil, até aqui, escolheu implementar: uma escola para todos. O acesso universal à educação, por sinal, não apenas é garantido pela Constituição, mas também na legislação infraconstitucional. O modelo cívico-militar não é uma opção que responde aos enormes desafios de um universo de 50 milhões de alunos em 150 mil colégios.

É evidente que, considerando esse universo amplo, isso traz o desafio de compatibilizar acesso e qualidade do ensino. O caminho para a melhoria da escola pública passa por: aumentar o investimento por aluno (o Estado gasta anualmente, em média, R$ 19 mil por aluno da escola militar e apenas R$ 6 mil/ano nas escolas públicas civis, como já mostrado pelo Estado), distribuir as matrículas de tal forma que cada professor tenha uma quantidade adequada de alunos para ensinar, investir nos regimes de dedicação docente exclusiva e aprimorar os processos seletivos dos profissionais, sua formação inicial e sua formação continuada.

Diariamente, programas de escolarização em tempo integral em diferentes Estados confirmam essas teses. Por que não trilhar, então, esse caminho e não propor políticas públicas que impliquem pensar a educação pública em escala, mesmo que a médio e longo prazo, algo que o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares não faz.

Escola pública tem de ser um espaço para que todas as crianças, adolescente e jovens possam aprender e se desenvolver, realizar seu projeto de vida e contribuir para a construção de um país, justo, ético, próspero e sustentável. Vale a pena reforçar: educação pública de qualidade é uma educação para todos, e não somente para os "bons", como pensam alguns, ou para uns poucos selecionados."

Anna Helena Altenfelder é presidente do Conselho de Administração do CENPEC Educação

 

Você gostaria que seu filho estudasse em uma escola cívico-militar?

Com disciplina rígida, escola cívico-militar em BH veta piercing e tatuagem

As garotas precisam estar de cabelo preso ou com trança. Já para os meninos, os cabelos devem ser curtos, em estilo militar. Namorar? Só fora da escola e sem o uniforme. MPF já se posicionou contra interferência das escolas nessas questões

6 SET2019

BELO HORIZONTE - Alunos do Colégio Tiradentes, em Belo Horizonte, relatam disciplina rígida até no comportamento dos jovens fora do prédio onde estudam na unidade Argentino Madeira, zona leste da capital mineira. A escola é uma das 203 que adotam o modelo cívico-militar, uma das principais apostas da gestão Jair Bolsonaro.

Estudam na escola filhos de policiais militares, a maioria, e de civis

Estudam na escola filhos de policiais militares, a maioria, e de civis

Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

Nesses colégios, a gestão é compartilhada entre civis e militares. Em Minas, há 30 unidades nesse formato. No Tiradentes, com 2.763 alunos, o uniforme é uma espécie de farda e o uso do casquete - uma boina semelhante à usada por militares da Aeronáutica. Só nas salas de aula e em ambientes fechados é permitido ficar sem os casquetes.

Estudam na escola filhos de policiais militares, a maioria, e de civis. Tatuagens e piercings são proibidos. As garotas precisar estar de cabelo preso ou com trança. Já para os meninos, os cabelos devem ser curtos, em estilo militar. Namorar? Só fora da escola e sem o uniforme - nem andar de mãos dadas está liberado.

"Essa parte de não poder andar de mão dada, acho ruim" conta um estudante de 17 anos, aluno do 2.º ano do ensino médio da escola. Ele estuda na escola desde os 7 anos e, quanto ao ensino, o avalia como "muito bom".

Para toda regra não cumprida, é registrada uma ocorrência e o aluno perde pontos. Duas repetências acabam em expulsão. Os alunos afirmam que registros de descumprimento das regras fora da escola são feitos só por funcionários do estabelecimento, que por acaso possam ver alguma "transgressão".

Uma aluna do 3.º ano do médio, também de 17 anos, afirma que sua paixão na escola é a fanfarra. A fanfarra se apresenta em datas com 7 de setembro e aniversário da Polícia Militar. A estudante, filha de civis, concorda com a disciplina da escola. "Caso contrário, o pessoal sai do eixo", diz.

A dona de casa Patrícia Oliveira, de 34 anos, matriculou o filho no 1º ano do ensino fundamental da Tiradentes. Também nesta fase é obrigatório o uso do uniforme semelhante à farda, com o nome identificado ao peito. "Gosto muito da escola. A educação preza pelo respeito às pessoas", afirma.

No Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2017, principal avaliação do governo federal, o colégio teve notas 7,3 (em 10) nos anos iniciais do ensino fundamental (6 a 11 anos) e 4,8 (em 10) nas séries finais da etapa (12 a 14 anos). Os resultados são maiores do que as médias da rede estadual mineira, de 6,5 e 4,4, respectivamente.

Estado tentou contato com o comando da escola, mas foi informado que, nesta quinta-feira, os responsáveis estavam fora em um evento fora do colégio.

Bolsonaro prevê 216 colégios do tipo; MPF critica gestão 'autoritária'

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) assinou nesta quinta-feira, 5, o decreto que regulamenta a adesão ao Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares. Os Estados e o Distrito Federal podem indicar, de 6 a 27 de setembro, duas escolas para receber o projeto já no primeiro semestre letivo de 2020 - elas precisam ter de 500 a mil alunos, do 6º ao 9º ano do fundamental ou do ensino médio. O governo federal pretende implementar a gestão em 216 escolas até 2023, sendo 54 por ano.

O Ministério Público Federal (MPF) da Bahia, em manifestação sobre o assunto em julho, já havia se posicionado contra interferência das escolas em coisas como corte de cabelo, cor das unhas e maquiagem dos estudantes ou impedimento de namoro e se manifestação política. Para o MPF, essas escolas têm visão "autoritária" e restringem a liberdade de expressão das crianças e adolescentes.

"As escolas públicas são para comunidade geral, alunos com diferentes vocações e personalidades, não se pode suprimir as individualidades. Os alunos necessariamente não querem ser militares, podem querer ser artistas, por exemplo", disse o procurador do MPF da Bahia Gabriel Pimenta.

 

https://www.terra.com.br/noticias/educacao/com-disciplina-rigida-escola-civico-militar-em-bh-veta-piercing-e-tatuagem,19ab30b87cdd58a54178ae23bc0e2148vei166kd.html 




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