Testamento Espiritual do Frei Sérgio
"Testamento Espiritual do Confrade Frei Sérgio Görgen Ofm:
"AOS SETENTA ANOS
Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente.
Nunca imaginei chegar a esta idade. Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça.
Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.
Chegar aos setenta tendo sofrido seis acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”.
Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.
Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive.
Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente.
Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, porque este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente.
Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas.
Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes o espírito arrastou meu corpo exausto.
Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.
E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão.
Por isso, cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e àqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus.
Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das Bênçãos divinas.
Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus.
Talvez, só por isso, tenha chegado aos setenta.
Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciaram encontrar.
Frei Sérgio Antônio Görgen OFM -
29 de janeiro de 2026".
Gratidão, Frei Sérgio, pelo seu testemunho profético!"
Franciscanos RS





