Trump, imperador mundial

Trump, imperador mundial

 

 

 

Donald Trump, enfim, fez uma coisa útil: ele desmentiu toda a grande imprensa, que arrumava, desde as 6 da manhã de hoje, alguma justificativa para o ataque à Venezuela. Com as favelas de Caracas e 3 bases militares ardendo em chamas, e um saldo de 40 mortos, o jornalismo brasileiro esticava e emendava de alguma forma as notícias, tentando convencer alguém que aquela operação militar tinha algum interesse humanitário.

Enquanto os comentaristas da RBS e da Globo arrumavam alguma desculpa para o bombardeio, Trump dava uma coletiva em sua mansão em West Palm Beach, na Flórida, onde dizia abertamente, que "os Estados Unidos vão cuidar do petróleo venezuelano e não gastaremos nada com isto, pois as empresas americanas é que farão o investimento".

Em dez minutos de entrevista coletiva, Trump fez a grande imprensa esquecer de toda a balela sobre narcotráfico, eleições fraudadas e desrespeito aos Direitos Humanos. Ele falou de petróleo e "dos interesses americanos na região", porque era só isto que interessava.

A Venezuela detêm 17% das reservas de petróleo do planeta. Há 50 anos, o país produzia 3 milhões de barris ao dia, e tinha as maiores taxas de miséria e analfabetismo do continente. A partir de 2013, com as sanções econômicas promovidas pelos EUA e UE, a produção caiu para 1,1 milhão diários. Atualmente os grandes compradores são a China e duas estatais russas, que compram o petróleo bruto e o refinam.

Em agosto, Trump posicionou forças navais no Caribe, e 10 barcos foram afundados, matando 111 pessoas. A Venezuela recorreu à ONU, que nada fez.

Leonardo Trevisan, professor de Relações internacionais da ESPM, lembrou que para além da gravidade de invadir um país e de sequestrar o seu presidente, Trump atropelou o Congresso estadunidense, porque ali não teria aprovação para o ataque. Ou seja: Trump está mostrando que logo os absurdos que a comunidade internacional engole, serão um problema nacional para a tal democracia americana. Trump age como um Imperador mundial, e ser o governador geral dos americanos será apenas um detalhe.

E a liberdade do povo venezuelano? É a mesma que os iraquianos e os afegãos leram, um dia, no Washington Post.

Fabiano da Costa

 

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O texto abaixo foi publicado em julho de 2024. Diante da invasão norte americana, na madrugada deste 3 de janeiro de 2026, seria interessante lê-lo com algum interesse, para compreender porque os Estados Unidos entraram no Caribe em agosto de 2025, falando de narcotráfico (o que simplesmente excitou os conservadores da Extrema Direita), raptaram navios petroleiros em dezembro, e hoje afirmaram que só aceitarão um governo de transição em Caracas, que por sua vez aceite que as empresas estadunidenses explorem o gás e o petróleo venezuelanos.

"Nicolas Maduro e uma grande Frente de Esquerda, venceram o pleito mais concorrido da Venezuela. Os resultados foram divulgados pelo Conselho Nacional Eleitoral Venezuelano por volta da 1 hora da madrugada. Maduro obteve 51,2% dos votos, e o principal candidato da oposição, Edmundo González, 44%.

Segundo o CNE, 59% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas neste domingo, 28 de julho. O candidato da oposição, o ex-diplomata Edmundo Gonzales, denunciou fraudes, e afirmou que a oposição teve 70% dos votos, mas observadores internacionais da União Europeia, do Brasil, da China e de países da América Latina, não verificaram anormalidades durante o pleito.

Na manhã desta segunda, o secretário de governo estadunidense Anthony Blinken, afirmou que os Estados Unidos aguardam a verificação das atas eleitorais, mas têm sérias dúvidas sobre o resultado. Celso Amorim, da Chancelaria brasileira, esteve no país e afirmou não ter verficado grandes tumultos ou eventos que colocassem a ordem democrática em risco.

O governo de Washington que já firma desconfiar do resultado, tentou emplacar uma candidata própria, Maria Corina Machado, que, cassada por fraudes na declaração nas contas de campanha e omissões na sua declaração de bens, quando ainda era deputada, não pode concorrer. Corina é engenheira industrial, e pós graduada no "Programa de líderes mundiais em políticas públicas" da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Este programa segue a Doutrina Neoliberal, de Estado mínimo, diminuição da Previdência Social, enxugamento da Máquina Estatal e busca do Superavit primário.

Marina Corina Machado surgiu para o mundo em 2014, quando Leopoldo Lopez e outros líderes da oposição, declaradamente apoiados pelos Estados Unidos, foram às ruas exigir novas eleições no país, após um ano da morte de Hugo Chavez. Este movimento de rua, em 2014, teve forte ligação com as "Jornadas de junho" de 2013 no Brasil, que fragilizaram o governo Dilma Roussef e potencializaram uma Direita raivosa no país, apoiada pela grande mídia. Foi o sistema contínuo de abalos na estrutura do Governo Dilma Roussef (PT) que permitiu a Aécio Neves (PSDB) contestar os resultados eleitorais de 2014 no Brasil, o Impeachment de Dilma em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A "onda" de descontentamento com as Políticas públicas deficitárias, ou insuficientes, na América Latina no período 2013-2014, abriu as portas, em sequência, para uma nova fase de Neoliberalismo nos países latinos, exatamente 20 anos após o implemento fracassado do Estado Mínimo.

Para muitos, infelizmente, ainda não é perceptível que o verdadeiro problema não é a permanência de Nicolas Maduro na presidência venezuelana, mas sim, o tamanho do Estado na economia local. Os Estados Unidos apoiaram a manutenção de Volodymir Zelensky na presidencia ucraniana este ano, sem eleições, impedindo que um novo governo realizasse acordos de paz com a Rússia. Ditaduras e monarquias absolutistas, como a Arabia Saudita, nunca foram um problema para a "Liberdade americana", desde que estes países estivessem alinhados com Washington. Quem, afinal, derrubou João Goulart em 1964, no Brasil?

Maduro não é o problema, mas sim, o tamanho do Estado na economia da Venezuela. Os analistas de Mercado enxergam o país como uma fonte inesgotável de petróleo para o restante do século, já que a Arábia Saudita anunciou que a partir de 2030, não o comercializará no Mercado externo, e a Rússia, outro grande produtor, só o negocia em rublos, para manter a moeda valorizada e o câmbio estabilizado. O petróleo responde à 1/3 do PIB e as ondulações no preço do combustível fóssil, levaram o país a 70% de inflação.

Em 2006, com a vitória de Hugo Chavez, presidente desde 1998, a oposição se rebelou com apoio norte americano. Em 2009, foi aprovado um projeto que permitia a reeleição sem limites no país, mas como os preços do petróleo estavam em alta, e a Venezuela estava entre os 4 maiores produtores do mundo, e crescia economicamente, não houve protestos de vulto. A renda do petróleo permitia a urbanização de favelas, a abertura de milhares de vagas nas universidades públicas, e o maior programa de saúde pública no mundo.

Em 2013, entretanto, Chavez faleceu em decorrência de um câncer, com Nicolas Maduro, seu vice, sendo eleito pela primeira vez. Em 2018, ele foi reeleito, mas o opositor Juan Guaidó se declarou presidente interino, sendo apoiado pelos Estados Unidos. Somente em 2023, houve um acordo eleitoral, mediado pela Comunidade internacional, para que eleições presidenciais ocorressem, sob vigilância internacional, neste ano de 2024.

Em resposta ao acordo, Washington apoiou um candidato, Edmundo Gonzales, que previa a privatização da PDVSA, a poderosa estatal de petróleos venezuelanos, e acenava ao Mercado com esta meta ainda para 2025. A reeleição de Maduro e sua provável manutenção no poder, até 2030, procrastinam esta possibilidade, já que a única fonte de renda do país é justamente o petróleo. Em 2021, a Consultoria econômica Mordor Intelligence analisava em seu site, que o país tinha grandes possibilidades à frente, e que a redução na produção de fontes de energia na Venezuela, em consequência da Pandemia global de COVID-19, poderiam ser revertidas pois a economia "(...) tem a possibilidade de envolvimento e participação de atores estrangeiros na exploração de petróleo e gás num futuro próximo".

O alarde da redução de produção estatal no país em 2021, e a promessa de que isto poderia ser revertido com a entrada de empresas privadas ou a privatização da estatal PDVSA, entretanto, não é verdade absoluta. Em 2019, um ano antes antes da Pandemia, o país viveu um novo ciclo de produção de petróleo bruto. "De acordo com a agência Reuters, o aumento foi de 20% em relação a outubro, quando a produção diária de barris da estatal venezuelana, a PDVSA, já havia aumentado de 644 mil em setembro para 687 mil, conforme os dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep)", afirmou a BBC, em matéria de dezembro de 2019. Mais do que isto, é bom lembrar que a estatal PDVSA já chegou a 1 milhão de barris/dia no auge da demanada global.

Frente às sansões mais violentas contra o país, impostas por Donald Trump em agosto daquele ano de 2019. entrou em cena a estatal de petróleos da Rússia. O governo Putin, interessado na sua expansão diplomática através dos BRICS, intermediou a venda de óleo cru venezuelano nos mercados asiáticos, e uma retomada de pedidos por parte de empresas que haviam deixado de fazer negócios com a PDVSA. Assim a Gazprom, estatal russa, adquiria petroleo bruto, o refinava e o repassava também aos Mercados Ocidentais.

Desde que os Estados Unidos passaram a impor fortes sansões econômicas ao país, a Venezuela também tem fornecido cada vez mais petróleo à China, e adquirido Yuans chineses e, claro, rublos russos no Mercado, para converte-los posteriormente à Dolares e Euros. A Guerra na Ucrânia e a política econômica adotada por Putin, de vender energia (gás e petróleo) somente em rublos, fez com os venezuelanos intensificassem seu comércio com os chineses. É de Pequim que hoje chegam parte do bens tecnológicos que a Venezuela adquire. Em todas as regiões pobres do mundo, como Cuba, Venezuela, Palestina e países do centro africano, a China estabelece forte laço econômico.

Por fim, é preciso analisar a vitória de Maduro num contexto global de ascensão da Extrema Direita e de domínio da Direita tradicional pela OTAN. A manutenção de Maduro em Caracas, bloqueia esta possibilidade imediatamente, e não permitirá que um novo Polo da Direita conservadora se estabeleça em Caracas. Se a amizade com Nicolas Maduro e a estabilidade diplomática brasileira com Caracas, soam tênues e as vezes constrangedoras ao Itamaraty, é fato de que a vitória de um governo economicamente neoliberal, mas politicamente conservador, seria bem pior.

A "vitória da Paz", como anunciou Maduro na madrugada desta segunda, 29 de julho, nada mais é do que uma pausa para contar os mortos. A OTAN, a CIA e o MOSSAD, não permitirão que reine qualquer paz em qualquer lugar, sobretudo onde não haja uma Democracia que não permita a liberdade de ceder petróleo ao Ocidente.

Além do mais, dominar um dos maiores produtores globais de petróleo, mesmo quando aparentemente não se precisa de imediato do seu maior tesouro, assinala a possibilidade de uma futura especulação econômica. E especulação econômica, quando se fala de venda de energia, significa desestabilizar governos democraticamente eleitos no mundo inteiro. Há, portanto, muito mais no subsolo da Venezuela do que petróleo". "

Fabiano da Costa é professor de História da rede pública em Rio Grande, Historiador com foco em História contemporânea e do Tempo presente, e foi candidato a vereador pelo PSOL.

FONTE:

https://www.facebook.com/fabiano.dacosta.7?locale=pt_BR 




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